domingo, 7 de novembro de 2010

ZUMBI SOMOS NÓS. 11/NOVEMBRO QUINTA 19H30


Zumbi Somos Nós
Documentário.  2007. Brasil. Direção: Frente 3 de Fevereiro .  52 minutos   12 anos.



 Manifesto sonoro e visual que traz as novas sonoridades e imagens urbanas, e seu elo indivisível com o legado afro-brasileiro. Espécie de bricolagem que une os tambores ancestrais, os ritmos contemporâneos e as novas simbologias visuais. “Zumbi Somos Nós”propõe uma reflexão sobre questões raciais na sociedade brasileira contemporânea e a criação de estratégias artísticas para responder a estas questões, inscrevendo na vida cotidiana novas formas de olhar, pensar e agir.


11/nov    quinta     19h30    gratuito



Por Maurinete Lima

Neste Brasil decantado como o país de muitas cores, de cultura de muitas raças, o país da diversidade, um jovem negro acabava de embarcar sua noiva e caminhava por uma movimentada avenida de São Paulo, quando de repente, teve sua vida totalmente revirada – havia sido confundido com um ladrão e foi executado de forma fulminante sem ter esboçado nenhuma reação.
Este caso passaria desapercebido como milhares de outros, se não houvesse um diferencial: era um jovem negro pertencente às camadas médias, dentista formado recentemente. Todavia, nem seu pertencimento de classe, nem sua mobilidade educacional o livraram de ser catalogado como suspeito. Estava aí revelado: o jovem Flávio Sant´ana morreu por ser negro.
Fica claro que há um viés racista contido na atuação da polícia, evidenciado pela expressão utilizada pela policia: elemento suspeito cor padrão. Ao investigarmos as raízes do racismo policial, a origem da polícia, em especial no Brasil, explicita que sua função é a repressão e o controle social das populações excluídas e a proteção da propriedade das elites, e não a proteção do cidadão. A polícia, e os policiais, acabam refletindo a organização geral da sociedade que, no caso brasileiro, tem uma forte herança escravocrata.
O que legitima essa função da policia é um sentimento disseminado de medo. Um medo branco que no passado era utilizado para manter sob controle uma enorme parcela da população escrava, submetida a condições de vida ultrajantes. Ao se transportar para a sociedade de hoje, este medo das elites traz consigo as mesmas políticas de controle social, que se aprimoram e se fortalecem. E aqui a figura do elemento suspeito é peça chave, uma vez que identifica um perfil claro como sendo suspeito: jovem, negro e pobre. E este perfil carrega a suspeição para onde quer que se locomova na cidade.
A realidade, portanto, desconstrói continuamente o mito da democracia racial. Este mito se configura como uma estratégia de apaziguamento e omissão da estrutura de exclusão racial existente no Brasil. A perversidade desta estratégia esta na sua capacidade de internalização da idéia de inferioridade por parte dos excluídos, por meio do auto-convencimento, reiterado incessantemente no cotidiano dos jovens negros.
Um outro exemplo foi o fato do jogador de futebol Grafite ter denunciado o jogador Leandro Desábato por ofensas racistas. Explicitou-se que nem mesmo o futebol, espaço idealizado como despido de qualquer preconceito e onde reina a harmonia entre as raças, confirma o mito da democracia racial. Debates acalorados são travados para avaliar se houve ou não racismo, mas tudo nos moldes da sociedade brasileira: racista é sempre o outro, melhor ainda quando este é argentino.
Estes mecanismos de exclusão se inserem em uma lógica maior, característica do planejamento das cidades modernas, que classifica áreas de modernidade, as quais se associam todas as idéias positivas, e de atraso, as quais se associa tudo que há de ruim. Esta forma de delinear a cidade vai criando pouco a pouco bolsões de exclusão, que são definidos pelo que não têm: não têm saneamento básico, não tem transporte coletivo suficiente, não têm calçamento, não tem iluminação pública adequada, etc.
A conjunção do medo, utilizado para legitimar a repressão, com o crescimento desses bolsões de exclusão, devido ao aumento das desigualdades sociais, levam a criação de verdadeiras bolhas de segurança. Sua justificativa é a segurança, mas sua lógica é a de impedir, particularmente em São Paulo, qualquer contato com o outro. Vale ressaltar que, diariamente, atravessam os muros dessas bolhas os residentes daquelas regiões conhecidas pelo que não têm, para prestar serviços como cozinheiras, lavadeiras, passadeiras, babás, etc.
A sociedade brasileira não se organiza em termos de cooperação e sim da exclusão, com um modelo de sociabilidade extremamente separado e violento. Em algum momento isto vai transbordar, vai ficar insuportável. Foi o que parece ter ocorrido por ocasião dos ataques do PCC, em maio deste ano, quando a cidade apartada fica face-a-face com a realidade da zona excluída. De nada adiantou todo seu aparato de segurança, pois a cidade com sua ideologia exclusora, com sua arquitetura anticonvivência, gerou de forma consciente ou inconsciente, este momento de caos.
E mais uma vez, a elite dominante perdeu a chance de rever esta insustentável falta de convivência e optou por mais controle, mais criminalização e mais confinamento.
Mas nem tudo é a História das práticas dominantes. Podemos identificar brechas nesse sistema. No passado elas se corporificaram em várias formas de resistência. O protesto escravo sempre esteve presente na História da escravidão. O escravo sempre deixou claro o seu inconformismo e isto acontece muito antes do final do século XIX. O quilombo dos Palmares é um exemplo disso. E sem falar das inúmeras revoltas, a mais conhecida delas sendo a Revolta dos Malês, pelo seu poder de organização, onde os escravos sabiam ler e escrever, enquanto seus senhores eram, em sua maioria, analfabetos.
Então, cabe a nós trazer para o presente e descobrir os nichos de resistência e suas estratégias. Desde uma ocupação de um prédio no centro da cidade pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), que nos traz uma associação direta com um quilombo urbano, em plena Prestes Maia, até discussão sobre a criação de cotas raciais nas universidades.
Enfim, Zumbi Somos Nós, todos os que procuram converter a violência em uma de resistência simbólica.

http://www.frente3defevereiro.com.br/

terça-feira, 4 de maio de 2010

Mais sobre O Fio da Memória

Para quem quiser saber mais sobre O Fio da Memória, documentário que será exibido no dia 13 deste mês:

http://www.casadaflor.org.br/
Site da Casa da Flor, construída por Gabriel Joaquim dos Santos e registrada no documentário.

http://www.escrevercinema.com/Coutinho_o_fio_da_memoria.htm
Artigo de José Carlos Avellar sobre o documentário.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Fio da Memória


13 de maio | quinta-feira | 19h30

Pois a memória de um povo não pode estar por um fio...

Trata-se de um documentário precioso, porém raramente conhecido, perto dos outros trabalhos de Eduardo Coutinho – um dos mais importantes documentaristas brasileiros. O Fio da Memória foi escolhido para exibição no mês de maio, pois este é um mês em que, mais que comemorações, devem ser feitas reflexões críticas sobre o processo que levou à conquista da abolição da escravidão, ocorrida há pouco mais de 120 anos.

Como fio condutor da narrativa, o cineasta trará à tela a vida do artista Gabriel Joaquim dos Santos, nascido em 1882 no interior do Rio de Janeiro. Filho de escravos, Gabriel construiu a Casa da Flor, uma casa feita com entulhos e decorada com cacos de garrafas. Essa casa foi considerada por alguns como uma obra de arte similar às construções do arquiteto Gaudí, na Espanha.
Em vários cadernos, durante longos anos, Gabriel fez anotações cotidianas sobre sua vida e sobre o que acontecia no Brasil (com as informações que chegavam a ele). Fragmentos destes diários são narrados ao longo do documentário pelo ator Milton Gonçalves. Essas leituras permitem compreender algumas das situações vividas pelos negros no processo que se inicia após o “13 de maio”.

A comemoração pelo centenário da abolição, em 1988, é documentada por Coutinho, que dará ênfase às contradições e paradoxos dos discursos proferidos pelo povo nas ruas do Rio. São entrevistadas pessoas como: Manuel Deodoro Maciel, ex-escravo de 120 anos de idade, a família que criou a escola de samba carioca Cacique de Ramos, menores abandonados e ex-baianas de acarajé. Missas afro, rodas de candomblé e de capoeira compõem as imagens do filme e a narração de Ferreira Gullar.

Com uma narrativa audiovisual pouco linear, a obra de Coutinho proporciona, entre outras coisas, a reflexão sobre o quão incompleta ainda é a aquisição da cidadania efetiva pelos negros após a escravidão. Também leva a refletir sobre como o registro histórico da memória de um povo é fundamental para que identidades e direitos não sejam perdidos.

Após  exibição  haverá debate sobre o filme mediado por convidado especial.
 
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